Mais uma semana tinha decorrido, mais precisamente a Sexta-feira do dia 29 Julho de 2011, demos a conhecer a todo o auditório mais um poeta, desta vez PAULO CÉSAR e partilhamos convosco o poema "MEMÓRIAS DA MEMÓRIA" (para a semana voltamos com mais 3 poetas):
Nas lodosas manhãs
Acordo da clausura
Da diáspora
E lanço âncora
Ao rés da maré vasa,
Quando a lua se despede
Com um beijo
E o sol se ergue
Majestoso
Nos escaparates do oriente.
Vagueio entre mudo e nu
Ao encontro das palavras
Estremunhadas e famintas
E descubro na água corrente
Temperada do duche matinal
As fragrâncias aferrolhadas
Dos campos que já não são,
Dos tempos que já foram,
Da vida que passou por aqui
E deixou marcas e marcos
Que dividem em talhões
E parcelas
O antes, o agora e o depois.
E uma melodia repetitiva
Invade-me por dentro e por fora
Impelindo-me a trautear
Maquinal e desajeitadamente
Palavras que arrastam memórias
E memórias que devolvem momentos
Tão presentes como se fossem novos,
Tão vivos como se fossem outros,
Sendo aqueles que já foram.
Há odores que sobressaiem
Das imagens dos sonhos;
Há cores que se sobrepõem
Ao colorido dos dias;
Há pessoas que retomam os seus lugares
Em cenários surreais,
Assumindo o protagonismo
Que o tempo fez esmorecer.
E no entanto o que já não é
Ainda continua a ser,
Quando nas lodosas manhãs
Acordo da clausura
Da diáspora
Para me assumir por inteiro
Actor duma peça em capítulos,
Cujas palavras esdrúxulas
Se perfilam imponentes,
Sem autoria definida…
Basta ser
E o mais é por si mesmo!
Paulo César, do livro “No chão d'água” – págs. 67 e 68.
pop ~ Onde o coração bate mais forte
Artigo Poesia com Paulo César publicado por pop * quarta-feira, 11 de abril de 2012. Obrigado pela sua visita e gostávamos saber a sua opinião sobre este artigo. 0 comentários





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